Extra #2 – SARS-CoV-2 / A vida após a UTI

A pandemia do SARS-CoV-2* é um evento traumático, que combina várias crises simultâneas: humanitária, financeira e até mesmo política, em alguns casos. Nos próximos meses, veremos uma abrupta redução da atividade econômica e um aumento do desemprego, tal como em períodos de guerra. O que faz a crise do SARS-CoV-2 diferente é o fato de que sua origem não está no sistema financeiro ou no excesso de alavancagem financeira, e sim na perda de renda e do valor de ativos, decorrentes do isolamento social mandatório.

Estima-se que neste primeiro trimestre de 2020 a atividade mundial fique 15% abaixo do patamar do ano passado. Governos em todo o mundo têm sido rápidos em anunciar pacotes de estímulos fiscais e monetários, que até o momento já são 50% superiores aos que foram adotados durante a Grande Crise Financeira de 2008-2009.

O impacto do SARS-CoV-2 no mercado financeiro foi severo. A incerteza econômica causou um impacto negativo no Ibovespa de 46,8% em seu pior momento**. Após a recuperação dos últimos dias, o retorno acumulado no ano é de -35,5% para o Ibovespa.

O Brasil seguiu o exemplo da China, de isolamento social, para controlar a pandemia, o que nos indica que em poucos meses é possível controlá-la, se as medidas de isolamento forem bem executadas.

As perguntas que nos fazemos diariamente, contudo, são relacionadas a como será a volta após esse período de sacrifícios pessoais e econômicos:

  • Por quanto tempo as medidas de isolamento continuarão? Além do impacto do período de quarentena, é importante considerar que o isolamento social será reduzido de forma gradual. Por exemplo: restaurantes em Beijing estão medindo a temperatura dos clientes na entrada e obrigando-os a sentar lado a lado (talvez por isso ainda estejam vazios). Outros devem utilizar robôs para reduzir o risco de contágio¹.
  • Quais empresas têm acesso a crédito e ao mercado de capitais? Este ano deverá ser desafiador para empresas que ainda precisam levantar recursos para crescer, refinanciar dívidas ou fazer aquisições estratégicas. Por algum tempo, teremos menos competição em muitos setores econômicos.
  • Mudanças de hábitos: os meses de confinamento obrigaram a população a usar intensamente educação à distância, compras on-line, trabalho remoto e telemedicina. Será que as taxas de adoção destes serviços serão estruturalmente mais elevadas? Será a crise atual o catalisador de mudanças regulatórias relevantes?

 

Primeiro país atingido pelo SARS-CoV-2, a China hoje já apresenta sinais positivos de recuperação da atividade econômica: o consumo de carvão, o número de pessoas trabalhando, o volume de transações imobiliárias e até mesmo o tempo de engarrafamento já estão relativamente próximos aos patamares normais. Nosso cenário base é que isso aconteça com os Estados Unidos, em alguns meses, e com o Brasil, logo em seguida.

Além disto, estamos atentos ao risco da retomada da epidemia, após um aparente controle. A China decidiu suspender temporariamente a entrada de estrangeiros na última quinta-feira (dia 26 de março), para tentar segurar uma nova onda de contaminação².

Temos a rara oportunidade de investir, a preços muito atrativos, em empresas de qualidade, difíceis de replicar e com estrutura de capital sólida. Temos ainda algumas posições vendidas, que deverão gerar retorno positivo, caso a pandemia dure mais do que apenas alguns meses.

Idealmente, o momento exato para investir seria determinado pelo tempo necessário para controlar a pandemia no mundo, uma pergunta difícil de responder mesmo pelos principais epidemiologistas do mundo e não temos a pretensão de respondê-la com precisão. Como todos os indicativos nos levam a crer que este momento ideal deverá ser ao longo dos próximos três meses, estamos atualmente alocados de forma prudente em companhias que apresentam assimetrias exageradas em termos de preço/valor, ao mesmo tempo que não dispensamos algumas proteções em caso do período de recuperação ser um pouco mais longo do que o esperado por nós.

Gratos pela confiança.

Âmago Capital

* SARS-CoV-2 é o vírus que causa a doença conhecida como COVID-19.
** Entre os períodos de 23/01/2020 – 23/03/2020
[1] https://www.reuters.com/article/health-coronavirus-china-robots/robots-rising-coronavirus-drives-up-demand-for-non-human-labour-in-china-idUSL4N2AY1SE, acessado em 31 de março de 2020
[2] https://www.fmprc.gov.cn/mfa_eng/wjbxw/t1761867.shtml, acessado em 31 de março de 2020